A política marabaense parece assistir a uma reviravolta improvável. O vereador petista Marcelo Alves (PT), que já protagonizou embates públicos com o prefeito Toni Cunha (PL), hoje é visto como um dos parlamentares mais alinhados ao chefe do Executivo municipal dentro da Câmara de Marabá. A mudança de postura, perceptível nas votações, discursos e posicionamentos recentes, tem gerado questionamentos entre setores políticos e sociais do município.
A aproximação chama atenção especialmente porque, em 2025, Marcelo Alves chegou a denunciar publicamente o prefeito por uma suposta ameaça verbal durante uma ligação telefônica. À época, o episódio acirrou tensões e expôs um ambiente de forte conflito entre os dois. Meses depois, porém, o cenário mudou radicalmente.
Nos bastidores da política local, vereadores e lideranças já tratam Marcelo como um dos principais defensores das pautas do governo na Câmara. O parlamentar tem adotado posição favorável em matérias estratégicas do Executivo, incluindo vetos do prefeito a projetos aprovados pelo Legislativo, além de manter postura convergente com o Gabinete de Toni Cunha em temas sensíveis.
Um dos episódios mais emblemáticos dessa nova sintonia envolve a proposta de criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar os últimos cinco anos da saúde pública municipal, demanda impulsionada principalmente por mães atípicas e usuários do sistema de saúde, diante de denúncias recorrentes sobre dificuldades de atendimento, demora em tratamentos e falhas estruturais.
Marcelo Alves se recusou a assinar o pedido de instalação da CPI. Em discurso na tribuna da Câmara, o vereador afirmou que parte da mobilização em defesa da comissão estaria sendo utilizada para “politicagem”, argumento que provocou reação de grupos ligados à causa das pessoas com deficiência e familiares de pacientes da rede pública.
A resistência à investigação acabou ampliando questionamentos políticos: por que evitar uma apuração ampla sobre a saúde municipal, justamente em uma área marcada por sucessivas reclamações da população? Para críticos da atual gestão, a negativa enfraquece o discurso de transparência e fiscalização, papel constitucional do Legislativo.
A proximidade entre Marcelo e Toni também foi observada durante viagem a Fortaleza (CE), divulgada oficialmente como agenda institucional para conhecer experiências de planejamento e gestão pública. Nos bastidores políticos, porém, circularam especulações sobre outros interesses relacionados à visita, como um suposto churrasco na mansão do pré-candidato a governador Dr. Daniel Santos, que inclusive apareceu no programa Fantástico da TV Globo.
O alinhamento também reacendeu o debate sobre a identidade política do atual governo. Embora eleito sob forte discurso associado à direita e ao bolsonarismo, Toni Cunha possui trajetória política iniciada na Rede Sustentabilidade, partido ligado à ex-ministra Marina Silva. Além disso, a administração municipal conta com integrantes identificados com campos progressistas e da esquerda. Um dos exemplos frequentemente citados é o secretário municipal de Educação, Cristiano Gomes, publicamente associado ao PT e cuja permanência no governo já foi reconhecida e defendida pelo próprio prefeito.
Histórico criminal de Marcelo Alves
A trajetória política de Marcelo Alves também carrega episódios judiciais de forte repercussão. Em julho de 2015, ele foi preso ao lado de outras nove pessoas durante investigação relacionada a esquema de cobrança de propina para acelerar processos de regularização fundiária no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em Marabá.
Posteriormente, em 2019, já no exercício do mandato de vereador, Marcelo foi condenado pela Justiça Federal a 8 anos e 5 meses de prisão pelo crime de corrupção passiva, em processo relacionado ao mesmo caso.
Agora, em meio à crescente aproximação com Toni Cunha, a mudança de postura do parlamentar volta ao centro do debate político local. O que antes era confronto aberto se transformou em alinhamento visível, movimento que continua alimentando dúvidas, críticas e especulações no cenário político de Marabá. A reportagem do Portal Curupira Marabá não conseguiu contato com Marcelo Alves para comentar a matéria até o momento. O espaço segue aberto para manifestação.