DA REDAÇÃO – Em meio à repercussão negativa da contratação do show do cantor Zezé di Camargo por R$ 1 milhão, o prefeito de Marabá, Toni Cunha (PL), passou esta sexta-feira (10) utilizando suas redes sociais para disparar uma sequência de ataques, ofensas e ameaças políticas, numa tentativa de desviar o foco do que de fato está em debate: o uso questionável de dinheiro público em um município mergulhado em graves problemas na saúde.
Inicialmente, o cachê do artista seria custeado parcialmente com recursos do Ministério do Turismo, do Governo Federal. No entanto, o repasse foi cancelado após a Prefeitura de Marabá não apresentar prestações de contas nem comprovar a regularidade da contratação, conforme exigido pela legislação. À luz da Lei nº 4.320/64, que rege as normas gerais de direito financeiro, o ato do governo federal é absolutamente legal, já que o empenho pode ser anulado antes da liquidação e do pagamento, o que ainda não havia ocorrido. Não há ilegalidade, perseguição ou arbitrariedade — há, sim, cumprimento da lei.
Mesmo assim, Toni Cunha reagiu de forma agressiva, atacando diretamente o presidente da República e politizando uma decisão técnica. Em suas redes sociais, escreveu, sem qualquer filtro institucional, prudência ou bom senso que são exigidos de um gestor público sujeito aos princípios da administração pública:
“O GOVERNO LULA em um ato de perseguição a Zezé Di Camargo e ao povo de Marabá, mesmo após empenho e aprovação de seu próprio ministério do Turismo, mandou cancelar o custeio que prometeu para Marabá. MARABÁ VAI PAGAR E O SHOW está mantido!!! Determinei que a procuradoria entre na justiça contra o governo federal! Ano que vem te daremos a resposta Lula.”
Em outra publicação, em tom ainda mais beligerante, o prefeito insistiu:
“@lulaoficial seus votos, em Marabá, vão diminuir, AINDA MAIS!! Vivemos, ao menos ainda, em uma democracia. A despesa já estava empenhada!! E os recursos públicos não podem ser aplicados de acordo o com o seu sentimento pessoal. Vou te colocar na justiça agora mesmo!”
Antes disso, Toni Cunha já havia publicado um texto recheado de ofensas e termos chulos, direcionados à grande parte da população de Marabá que vem questionando a contratação milionária do artista em fim de carreira:
“É ridículo seres de outros estados e da capital criticando os Shows da Virada de Ano em Marabá. Não vou cancelar nenhum SHOW e não vou recusar os recursos para custeá-los, que são TODOS DO MINISTÉRIO DO TURISMO e foram aprovados para este fim, não podem ter outra destinação. @zezedicamargo ZEZÉ DI CAMARGO FICA!! E se precisasse pagar com recursos próprios, pagaria. Quem manda nas políticas públicas de Marabá sou eu, A MANDO DOS MARABAENSES!! Quem de fora quiser “amolecer o chifre” “, para de chorar, vem para Marabá curtir a maior virada de ano da história!!”
O contraste entre o discurso arrogante do prefeito e a realidade da cidade é gritante. Enquanto Toni Cunha ostenta poder nas redes e decide, por vontade própria, destinar R$ 1 milhão dos cofres municipais para um único show, Marabá devolveu quase R$ 1 milhão ao Ministério da Saúde por não realizar nenhuma cirurgia eletiva em 2025. A fila já ultrapassa 8 mil pacientes, muitos correndo risco de agravamento do quadro clínico diante da espera prolongada.
Nas próprias redes do prefeito, seguidores cobram prioridade, responsabilidade e ação concreta. Questionam como o gestor não é capaz de executar os recursos da saúde, mas demonstra absoluta disposição para bancar um show milionário. Pelos valores da Tabela SUS, R$ 1 milhão permitiria a realização de pouco mais de mil cirurgias eletivas, aliviando significativamente a fila e o sofrimento de milhares de famílias.
Além da polêmica financeira, a contratação do artista também é alvo de críticas quanto à razoabilidade do valor. Em outras cidades, Zezé di Camargo tem se apresentado por cachês em torno de R$ 300 mil. Relatos recorrentes de usuários nas redes sociais apontam apresentações questionadas, com grande parte do público assumindo o protagonismo vocal, enquanto o artista apenas cumpre o tempo de palco. Ainda assim, a Prefeitura de Marabá optou por pagar mais do que o triplo desse valor, sem transparência suficiente para justificar a discrepância.
Diante de toda a repercussão negativa, cresce a avaliação de que o chamado “show da virada” pode se transformar em um verdadeiro fiasco, marcado não pela celebração, mas pela vaidade, pelo ego e pela desconexão do prefeito com as reais prioridades da população. Enquanto a saúde pública agoniza, Toni Cunha escolhe transformar um evento festivo em palco político e ideológico, bancado com dinheiro público e sustentado por bravatas nas redes sociais.
No fim, o episódio expõe não apenas uma decisão administrativa controversa, mas um modo de governar que privilegia espetáculo, confronto e autopromoção, em detrimento de políticas públicas básicas e urgentes para Marabá