Toni Cunha aluga caminhões de lixo por R$ 9 milhões e mente nas redes sociais dizendo ter comprado veículos

23 jun

Marabá troca frota própria e moderna por aluguel milionário de caminhões menores com indícios de superfaturamento

Uma manobra fiscal e logística na gestão do lixo em Marabá entrou na mira de questionamentos sobre a eficiência no uso do dinheiro público. Enquanto o município dispõe de uma frota própria de 19 caminhões coletores operacionais, herdada da gestão do ex-prefeito Tião Miranda, a atual administração do prefeito Toni Cunha (PL) optou por deixá-los de lado para fechar um contrato milionário de aluguel de veículos com menor capacidade de carga. A mudança aponta para um potencial prejuízo aos cofres públicos devido ao aumento necessário no número de viagens e indícios de superfaturamento.

A herança ignorada: 19 caminhões próprios e operacionais

De acordo com o histórico patrimonial do município, a gestão do ex-prefeito Tião Miranda entregou a atual administração uma frota própria composta por 19 caminhões coletores em pleno funcionamento. Trata-se de maquinário robusto de propriedade definitiva da prefeitura, com anos de fabricação variando entre 2018 e 2024.

Mesmo com esse patrimônio público disponível e ativo, a gestão de Toni Cunha optou por escantear o uso da frota própria para adotar a política de terceirização por meio de locação.

O contrato milionário e os caminhões "toco"

A análise de documentos disponíveis no Portal da Transparência mostra que o Serviço de Saneamento Ambiental de Marabá (SSAM) firmou um contrato de locação com a empresa J.L. Construções e Serviços Ltda. O objeto da licitação é o aluguel de caminhões compactadores de lixo com motorista incluído.

O impacto financeiro é expressivo, sendo o valor total do contrato R$ 9.198.000,00 (mais de R$ 9 milhões), o custo unitário mensal de R$ 51.100,00 por cada caminhão locado. Em relação à quantidade a prefeitura pode solicitar até 15 veículos simultaneamente.

A principal divergência técnica e econômica apontada pela investigação reside na especificação dos veículos. Enquanto a frota própria deixada pela gestão anterior possuía alta capacidade de carga, os caminhões alugados são do tipo "toco" (dois eixos), que possuem capacidade de coleta significativamente menor.

Especialistas em logística urbana apontam que a escolha por veículos de menor porte gera um "efeito cascata" nos gastos: para coletar o mesmo volume de lixo que os caminhões antigos faziam, os novos veículos precisam realizar mais viagens diárias até o local de descarte. Mais viagens resultam em maior consumo de combustível, maior desgaste e, consequentemente, custos operacionais inflados.

Indícios de superfaturamento e repetição de padrão

O valor de R$ 51,1 mil mensais por unidade locada levanta fortes indícios de superfaturamento, principalmente quando comparado ao valor de mercado para locação de caminhões do tipo toco e ao fato de o município já possuir veículos próprios superiores parados ou subutilizados. Ao término do contrato, o montante de mais de R$ 9 milhões terá sido integralmente pago, mas nenhum veículo restará como patrimônio para a cidade.

Essa prática de priorizar a locação milionária de equipamentos em detrimento da aquisição definitiva ou manutenção da frota pública não é inédita na atual gestão. O mesmo modelo polêmico foi adotado recentemente no contrato de iluminação pública de Marabá, onde a prefeitura também preferiu o aluguel de estruturas ao invés da compra.

A mudança contratual ocorreu logo após um período de intensa crise, onde moradores de diversos bairros e da zona rural denunciavam que a coleta vinha sendo improvisada por tratores e caçambas, gerando riscos severos à segurança dos garis. Agora, a substituição por uma frota alugada menor e mais cara coloca sob suspeita a real eficiência econômica da atual administração.

A reportagem buscou contato com a Prefeitura de Marabá e com o Serviço de Saneamento Ambiental (SSAM) para questionar os motivos técnicos da escolha por caminhões de menor capacidade e os custos do contrato, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto.